Foi através da minha mãe que criei o gosto pela leitura, e que viajei por carreirinhos de palavras e livros que aguçavam-me a curiosidade e deixavam-me perplexa de espanto!
Era ainda menina e já sentia na pele o fascinio pelos livros, o fernesim da leitura a percorrer os caminhos do imaginário, o eco das sílavas a afagar a minha alma, de mansinho como quem desbrava uma madrugada ainda por nascer.
A minha mãe, uma mulher atarefada com as lidas domésticas possuia umas mãos calejadas de ceifar a vida e um olhar profundo e silencioso perdido no horizonte. Num gesto maternal e mágico as rendas entrelaçavam os seus dedos hajeis e maduros, e através das suas mãos floresciam pequenas obras de valor que ela tecia com muito cuidado e dedicação.
No seu regaço, caloroso e humilde espreitava timidamente a curiosidade dos livros, o gosto pela leitura e a sede avassaladora de aprender sempre mais, mas infelizmente o tempo e a vida não permitia que ela tivesse acesso a esse tipo de prazer, considerado uma perda de tempo.
Lá longe, na distância dos estímulos, os livros ficavam recolhidos em segredo debaixo da almofada ou escondidos debaixo do avental, onde de forma discreta afeiçoavam-se ás rendas brancas que os protegiam dos olhares indiscretos.
Foi assim, que a minha mãe criou labirintos de palavras dentro de si e escreveu histórias invisíveis na palma das suas mãos.
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